janeiro 01, 2004

A Morte Abreviada de Manuel Cardoso - I



A MORTE ABREVIADA DE MANUEL CARDOSO


A funcionária da Contabilidade preencheu o recibo e o cheque e depois entregou-lhos, indicando o local onde ele devia assinar.

«Isto é que é sorte, hem, sr. Cardoso! Leva aqui, de uma só vez, uma indemnização que é quase um ano de trabalho em dinheiro e reforma-se um jovem... Depois é que vai ser, o dinheirinho da reforma todos os meses e só boa vida!...»

Ela levantou os olhos dos papéis que pejavam a secretária e sorriu, fixando-o entre descarada e brincalhona.

«É cá uma inveja que me faz... Um jovem e já reformado, hem?!... É ou não é, sr. Cardoso?»

Ele riu-se também e não resistiu a gracejar:

«Jovem, propriamente, não direi... mas aqui ao pé de uma carinha fresca como a sua até me esqueço dos anos que tenho.»

E como ela, mordiscando distraidamente a ponta da esferográfica, divertida e risonha, continuava a olhar para ele, baixou ligeiramente a voz e abriu-lhe mão de uma confidência:

«Ainda hei-de fazer os sessenta. Mas olhe, deixo cá mais de quarenta anos de trabalho. Mais?!... Oh, muito mais... Entrei para cá ainda nem os quinze completos tinha, agora tenho cinquenta e nove, veja lá quantos anos não deixo nesta casa?»

A rapariga encostou-se toda para a frente, descontraída, os braços dobrados em cima da secretária, as bochechas rosadas da cara fresca apoiadas nas conchas das mãos, e Cardoso perdeu-se em recordações:

«Entrei para cá directamente para o jornal, não foi logo para a tipografia, embora, nessa altura, fosse tudo uma só empresa. Eu fazia serviço externo, compras, correio, encomendas, coisas assim. Levava para a rua e trazia. Era então director o Doutor Ruas Rosa... O que ele gostava de umas merendinhas que se faziam numa padaria que havia ali ao fundo da rua, onde agora há um snack-bar que serve almoços ao balcão! De manhã, a primeira coisa que eu fazia era ir-lhe buscar uma merendinha quente, acabadinha de sair do forno... Mas estive pouco tempo no serviço externo, não demorei muito a passar para a tipografia. Sempre que podia dava uma escapadela lá abaixo, às máquinas, e ficava, cá de cima, a espreitar os homens no trabalho. Naquele tempo ainda nem se sonhava com computadores nem off-sets, era tudo em chumbo, trabalho pesado, feito numas máquinas grandes e escuras, as linotypes, era assim que se chamavam, que compunham os textos em graneis que depois montávamos nas ramas para fazer as páginas dos jornais. Os homens usavam uns fatos azuis-escuros, eu ainda me parece que sinto o cheiro a chumbo que ficava no ar!... Mas o que verdadeiramente me deixava fascinado era a rotativa, enorme como um monstro pré-histórico, um emaranhado de correias compridas como cobras que se perdiam nas voltas que davam. Quando a punham a trabalhar, primeiro resfolegava como um comboio a vapor a subir uma encosta, depois, quando engrenava, era um cavalo possante e alado vomitando jornais que ainda escorriam tinta fresca... Foi o Doutor Ruas Rosa que me disse, Gostas?... Então passa para lá e faz-te um artista. Sim, ele tinha razão, montar um jornal é um trabalho de artista, a gente tem ali uma maqueta à frente, que não passa de uns riscos, uns traços, umas indicações, uma ideia. Mas depois vêm os textos, os títulos, as fotos, as redes, não basta colocá-los no sítio certo, é preciso calcular os tamanhos, sentir os equilíbrios, perceber os contrastes, jogar com as distâncias. Montar as páginas de um jornal é dar corpo a uma ideia, vê-lo surgir ali, materializado e palpável. Um trabalho de artista!... E olhe, não é para me gabar, mas eu era dos melhores.»

O dia de trabalho chegava ao fim e a funcionária da Contabilidade já arrumava discretamente os papéis e fechava os dossiers. Cardoso guardou o cheque e o recibo na algibeira de dentro do casaco e transpôs a porta da empresa ainda com a recordação do velho cheiro a chumbo nas narinas, de mistura com o discreto aroma das modernas e lustrosas folhas onde o texto composto passara a ser impresso. Lá fora, a tarde era de Verão, cheia ainda de uma luz que parecia rir, e de gente que corria, indiferente e apressada, desejando chegar a casa depois de mais um dia de trabalho. Cardoso caminhava também apressado, no meio da multidão, alheio ao afago quente da luz, tropeçando em lembranças que se lhe atravessavam no pensamento.

Empurrou devagarinho a porta do gabinete do Engenheiro Gomes. Primeiro tinham partido a empresa, jornal para um lado, tipografia para outro. O jornal dava prejuízo, diziam. Depois a Redacção do jornal mudou de instalações. Foi nessa altura que chegou o Engenheiro Gomes, antecedido por uma aureolante fama de inteligência e sabedoria. Pasmou-se o pessoal de tanta juventude. Pasmou-se ainda mais quando se deu conta de tanto dinamismo e eficácia num corpo tão delgado e imberbe de adolescente. Os gráficos e fotógrafos comentavam, maldosos e gozões, que a cara do engenheiro tinha menos pêlos que a da D. Carolina, a telefonista gorda mas de voz tão suave, tão terna e acariciante, que fazia esquecer, a quem a ouvia, os pesados e grossos quilos que se derramavam nas roupas irremediavelmente apertadas, lá atrás do PBX.

Pois, quanto ao Engenheiro, o pessoal não sabia ao certo se ele era director, se chefe, se gestor, mas, desde que chegara, passou a mandar em tudo, tudo supervisionando e tudo corrigindo e reestruturando, omnipresente e omnisciente, cheio de leveza e gestos elásticos. Era vê-lo da sala de composição para a montagem, da montagem para a fotografia, da fotografia para a impressão, desdobrando-se em incansáveis e entusiasmadas explicações, sublinhadas a sorrisos e matizadas de palavras difíceis que os gráficos decifravam mal, baralhando-lhes os pensamentos.

A única coisa que toda a gente percebeu é que a empresa estava a dar uma grande volta. Era o progresso. Eram as novas tecnologias. Era a competição de mercado. Era tornar aquela uma empresa agressiva e dinâmica, capaz de fazer face aos desafios do futuro e às novas conjunturas. A partir daí, apanhados nessa onda enorme e avassaladora, foi um ver se te avias de gente que se mudou para outro local de trabalho, que se despediu e foi despedida, que se reformou e foi convidada a reformar-se. Muitos partiam satisfeitos e com poucas saudades, embalados em sonhos e projectos futuros de negócios por conta própria a que algumas indemnizações, recebidas à despedida, teciam de facilidades e deslumbramentos.

Cardoso abriu a porta do gabinete do Engenheiro Gomes e logo ele se levantou, cumprimentando-o efusivamente.

«Sente-se, sr. Cardoso, sente-se.»

O cabelo do Engenheiro, que era liso e castanho, tinha um corte caprichado e mantinha-se impecavelmente penteado. As calças, a camisa, a gravata, eram claras, leves, modernas e harmoniosas. Mas as mãos do Engenheiro, que eram brancas e finas e tinham uns dedos tão exageradamente compridos que ele os mexia desajeitado, lembravam as mãos de um menino que tivesse crescido depressa demais.

Depois o Engenheiro falou, transbordando sempre de sorrisos, mexendo continuamente as mãos de dedos compridos. Que ele, Cardoso, pensasse bem, ninguém o obrigava a nada. Ninguém queria obrigá-lo a reformar-se mas, com a idade que tinha e tantos anos de serviço... Depois foi novamente aquela história das tecnologias, dos progressos, da reestruturação da empresa, das competições de mercado. As palavras do Engenheiro flutuavam na cabeça de Cardoso como num mundo sem gravidade. O Engenheiro inclinou-se ligeiramente e apresentou-lhe o papel para a antecipação da reforma. E Cardoso, sem sentir bem os pés no chão, levitado, assinou por baixo em letra miúda e desenhada.

Quando soube, a mulher fez-lhe uma festa. Que maravilha! Com aquele dinheirinho que iam receber podiam mandar arranjar os canos da cozinha, pôr umas torneiras novas e comprar uns armários modernos. E ele ia descansar, que bem precisava. Quem lhe dera a ela, sempre naquela labuta a ver se não chegava atrasada ao emprego para não ter falta nem descontos. E todos os dias aquela canseira dos transportes e das bichas, quem lhe dera a ela poder já reformar-se e ficar em casa a tratar das suas coisinhas. Talvez a mulher tivesse razão. Pois se toda a gente lhe dava os parabéns pela sorte que tinha...

Cardoso apercebeu-se que, rapidamente, tinha descido as ruelas estreitas do Bairro Alto, apertadas entre prédios de janelas antigas, com cordas de roupa pendurada, a secar, que as mulheres apanham àquela hora da tarde. Ruelas íngremes e tortuosas, salpicadas de velhas tascas de lume a carvão à porta e de casas com jantares típicos e Fado na ementa, onde, em horas perdidas, gente de variados quadrantes e ofícios bebe café e álcool. Atravessou o Rossio, fervilhando de pessoas que se cruzam e acotovelam na pressa de apanhar transporte, alheias aos pedintes de olhar parado que ostentam mazelas e cartazes toscos onde se descrevem tragédias, à laia de legenda, em meia dúzia de palavras com erros: "Tou desinpregado e sofro de trabeculose". "Na tenho dineiro pra comprar o leite para os mes filhos". O pregão do vendedor de bugigangas alterna com o da mulher dos raminhos de flores e as pessoas quedam-se por instantes, numa curiosidade breve. Junto aos semáforos, em magote, esperam com impaciência que chegue o verde para os peões e depois avançam de assalto, como uma vaga, para o outro lado da rua. Cardoso respirou fundo, com um longo suspiro, e desceu os degraus do Metro, a caminho de casa.


(continua)


anamar - 1989

Publicado por vmar em janeiro 1, 2004 06:00 PM
Comentários

Óptimo artigo! Quantos e quantos portugueses não se revêm nesta crónica, agora que as empresas estão a despachar o pessoal para casa!

Afixado por: canzoada em janeiro 1, 2004 06:36 PM

;)
beijinhos... :)

Afixado por: Vanda Duarte em janeiro 2, 2004 05:47 PM

Realmente, uma coisa escrita há catorze anos continua tão actual!

Afixado por: vmar em janeiro 4, 2004 03:52 PM